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Estônia: uma democracia digital

- October 18, 2016 in Dados Abertos, Destaque

estonia_ Por Thiago Rondon* Há um lugar no mundo hoje, em um pequeno país no leste europeu, que é necessário, ao máximo, 15 minutos para concluir todo o processo de venda de um carro; onde 30% dos eleitores votaram pela internet na última eleição; 98% das receitas médicas são prescritas digitalmente entre o médico e o farmacêutico sem nenhum papel; onde você pode acessar sua conta bancária e realizar pagamentos, assim como utilizar o transporte público com seu cartão de identidade. A Estônia é um pequeno país que conquistou sua independência em 1991, se tornou membro da União Europeia em 2004 e entrou para a Zona do Euro em 2011. Tudo muito recente. O presidente atual, Toomas Hendrik Ilves diz que, em alguns momentos, é uma vantagem não ter legado. Ele comenta também que a independência do país chegou em um momento em que os recursos eram pequenos, mas também era o início da revolução da internet e parecia que o caminho que eles deveriam seguir seria o digital. E assim o fizeram. Visitei a Estônia com o Ariel Kogan para entender melhor a democracia digital. Antes da viagem, li o capítulo sobre uma nova democracia no livro Blockchain Revolution com suas referências estruturadas em um governo já existente na atualidade para que novos sistemas de confiança com base em blockchain fossem utilizados para oferecer novas possibilidades de participação. O nosso objetivo foi visitar e conversar com diversas pessoas envolvidas no processo de implementação destes sistemas, com a sociedade civil, cidadãos e com assessores de políticos em Tallinn, capital da Estônia e sede do governo. Há diversos desafios para a implementação de uma democracia digital, principalmente relacionados à confiabilidade e à segurança. Como implementar de maneira transparente e justa, sem excluir e expor ainda mais a privacidade dos cidadãos? Esse esforço exige um alinhamento grande de políticos, juristas e especialistas em segurança de tecnologia. No caso da Estônia, tudo começa basicamente por três elementos:
  • Registro nacional, no qual é armazenado em um banco de dados com o cadastro da população pelo governo com informações do perfil do cidadão;
  • Cartão de identidade digital, que  fornece juridicamente a garantia de identificação e assinatura digital;
  • Leis construídas com base na tecnologia para sustentar o ecossistema.
A identificação digital é o grande “desafio” para a democracia digital pela sua implementação e questões relacionadas à privacidade. Na Estônia, é obrigatório que todos os cidadãos tenham identificação digital, mas não necessariamente que a usem. Para se ter uma ideia de como os serviços públicos e privados estão se utilizando dessa identificação no meio digital, já foram assinados 242 milhões de documentos digitalmente por uma população com um pouco mais de um milhão de habitantes. Aparentemente, a população está confiando no sistema. Apesar de ser uma amostra pequena, nós questionamos alguns cidadãos comuns em lojas e na rua e foi dito que eles acreditam e confiam, de fato, no sistema. Para qualquer participação digital, é necessário apenas um computador, internet e um leitor de smart-card, que custa em torno de 10 euros. Caso não se tenha essa estrutura, é possível encontrar em locais públicos, como bibliotecas ou centros que oferecem computadores com leitores de smart-card e internet segura. Desde de 2011, também é possível que os cidadãos sejam identificados pelos seus celulares via “SIM cards” especiais que contêm um certificado digital e dois códigos PIN para identificação.

Votação via internet

Imagine uma votação por correio, em que o cidadão utilize dois envelopes. Um deles contém a cédula com o voto realizado pelo cidadão e o outro contém informações de identificação do eleitor. Para realizar o envio do voto por correio, é preciso colocar o envelope do voto dentro do envelope com a identificação. Quando esse envelope é enviado para o centro responsável pelas eleições, é verificado se o cidadão pode realizar a votação com seus dados do envelope externo e, se puder, o envelope interior é depositado em uma urna para contagem. Dessa maneira, não é possível saber quem votou em quem, apenas quem votou. É como acontece no meio digital. Utiliza-se uma chave para criptografar o voto do envelope exterior, que é enviado para servidores da comissão nacional de eleição, e o envelope interior é criptografado com uma chave que apenas a comissão de contagem dos votos tem para ler o voto. Dessa maneira, o processo ocorre em dois momentos. Na transição das fases, para que não aconteça nenhum tipo de manipulação, há observadores técnicos que são representantes da sociedade civil e políticos. O tempo de duração das eleições online é de sete dias. É possível votar mais de uma vez, porém só é válido o último envio do voto e não há registro disponível dos anteriores. Ainda há votação via papel e, caso o eleitor faça a votação fora do sistema online, o voto online não é computado. Essas são medidas adotadas por questões de segurança caso alguém compre seu voto ou force você votar em algum candidato. Com esses dispositivos, essas ações se tornam mais complexas e ainda facilita futuras investigações de fraudes.

Arquitetura

A Estônia optou por um modelo em que o governo e as empresas podem desenvolver aplicativos cívicos com as mesmas facilidades. Para isso, o governo implementou uma arquitetura de camadas para que essa escala fosse possível. De maneira geral, são três camadas.  A primeira  é o sistema de identificação digital. Logo depois, um banco de dados descentralizado com informações que podem ser compartilhadas com outros sistemas e, por último, uma camada de aplicativos independente que pode usufruir dessa camada de dados, identificação e autorização.

Identificação Digital

Para que os serviços públicos estejam disponível online, o primeiro passo foi a implementação de um serviço de identificação digital para que toda a população pudesse autenticar, assinar e executar ações digitalmente. O cartão de identificação é do mesmo tamanho que um cartão de crédito comum, que é possível colocar na carteira e é válido em muitos países europeus, sendo o mesmo cartão utilizado no mundo virtual e físico. Esses cartões de identidade têm um chip eletrônico com dois códigos PIN –  o primeiro utilizado para autenticação e ter acesso, por exemplo, aos registros de saúde, verificar validade de documentos sobre o seguro do carro, visualizar lista de candidatos em uma eleição. Já o segundo código é utilizado para validar transações online como, por exemplo, aquisição de apólice de seguros, envio da declaração de imposto de renda ou a realização de um voto em uma eleição.

Os dados, framework legal e proteção

Pela lei, na Estônia, nenhum sistema nesse ecossistema está autorizado para armazenar a mesma informação em mais de um lugar. Os dados de cada pessoa, tais como nome, data de nascimento, sexo, endereços, cidadania e suas relações jurídicas estão no banco de dados da população e esse perfil não pode estar em outros sistemas –  apenas o identificador exclusivo de cada cidadão pode ser usado nas outras bases de dados. Há uma rede chamada “X-Road” que é uma maneira de se compartilhar dados entre estes sistemas de maneira segura. Nele, cada proprietário dos dados determina quais informações estão disponíveis e quem tem acesso a eles por meio  de padrões de desenvolvimento de software. Caso queira saber onde estão os dados, para os sistemas há protocolos padrões definidos para isso. Porém, para o cidadão que queira visualizar todos seus dados de maneira organizada, é possível fazer isso no portal do Estado  –   que é possível verificar suas informações em mais de 500 serviços públicos integrados usando seu cartão de identidade. Desta forma, o cidadão pode corrigir e analisar tudo que está registrado de maneira muito simples e rápida. Além disso, é possível consultar informações sobre uma empresa,  propriedade de terras, e até do presidente. Para que se mantenha a confiança no sistema, foi implementado um sistema de registro aberto de maneira muito simples de ser consultado, ou seja, como cidadão, você tem o direito de saber sobre todos que consultam sobre seus dados. Imagine um cidadão que vai realizar uma consulta médica, os registros históricos de saúde acessados pelo médico e a prescrição de um medicamento emitido pelo médico é consultado por um farmacêutico. Nesse exemplo, é possível verificar o nome do médico e do farmacêutico nessa visualização, e todas as informações para identificar por qual motivo elas aconteceram. Apesar de tudo isso funcionar muito bem, o que me deixa mais intrigado é como manter a privacidade dos cidadãos. Há leis bem rígidas para os funcionários do governo, pois como diria meu amigo Renato CRON “sempre tem alguém com root no sistema”, ou seja, alguém tem acesso ao sistema de maneira ‘aberta’ e pode realizar consultas ou modificações sem deixar rastros. Para mitigar esse risco, o governo estabeleceu auditorias independentes regularmente para assegurar a confiança. Alguns aplicativos desse ecossistema são softwares livres e podem, inclusive, ser encontrados no GitHub como, por exemplo, o Open Electronic Identity e a versão antiga do i-voting. Porém, versões mais recentes do i-voting não estão mais abertas e os motivos não ficaram muito claros nas respostas que tivemos lá. Me pareceu que eles são abertos para observadores locais, mas acredito que o maior ponto de atenção seja exatamente esta fiscalização sobre o seu funcionamento atrás dos códigos. Apesar de estar coberto por legislações, é necessário manter seus códigos abertos e assegurar que esses códigos são os mesmos que estejam em execução pelo governo. Para quem está buscando compreender como uma democracia digital pode funcionar, a Estônia, com certeza, é um ótimo exemplo de como esse desafio pode começar, e como ouvimos dizer por lá: “agora, temos um backup nas nuvens da nossa democracia”.
  • Thiago Rondon é conselheiro da OKBr e diretor-executivo do AppCivico.
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Vamos melhorar a participação cidadã no orçamento público?

- February 16, 2016 in acesso à informação, brasil, colaboração, Conhecimento Livre, Dados Abertos, Destaque, Gastos Abertos, governo, Internet, Lei de acesso à informação, orçamento público, planejamento, sociedade civil, transparência

Estou muito entusiasmado em contribuir com o Gastos Abertos da Open Knowledge Brasil como o novo coordenador do projeto, com uma proposta que não é apenas o desenvolvimento de transparência e visualização de dados do orçamento, mas também a possibilidade de criarmos um caminho para participação cidadã através do orçamento público.

gastosabertos

Assumo o projeto com a equipe do AppCívico com o objetivo de melhorar a participação cidadã e prestação de contas pelos municípios do orçamento público, e para isto acredito que devemos mapear o que aprender e discutir sobre o orçamento público e até que ponto a tecnologia pode ajudar nessa questão.

  • O orçamento público pode ser colaborativo até que ponto? Os compromissos assumidos pela lei sobre os gastos públicos, principalmente na esfera federal, podem ser consultados ou estão abertas para participação cidadã?
  • O orçamento público é planejado de maneira correta? Qual o impacto quando o planejamento não ocorre? Como podemos mitigar estes problemas com ajuda do cidadão?
  • Quais as melhores práticas para o cidadão poder participar das escolhas e prioridades de interesse público no orçamento público? Quais dispositivos o cidadão pode utilizar para pressionar?
  • Quais são os outros setores ou áreas que podem contribuir para uma melhora da execução orçamentária como resultado?
  • Como a transparência e prestação de contas pode auxiliar o desenvolvimento de uma sociedade? Como fomentar a criação de novas tecnologias para geração de tendências, cruzamento de informações e instrumentos para a fiscalização?
  • Plataformas digitais podem promover a democracia participativa ou a democracia direta no orçamento público? Caso sim, como criarmos uma boa experiência e a compartilhamos para que seja replicada?

Assim que recebi o convite, comecei a escrever uma teoria de mudança para poder organizar todas as atividades e prioridades do projeto, e a primeira versão é esta aí. Caso queira visualizar melhor ou contribuir, clique neste link.

Resultados sociais

O objetivo social do projeto é provocar a criação e crescimento de um ecossistema de atores e políticas públicas para construir um processo orçamentário mais aberto e participativo baseado no contexto de cada município, fazendo com que os tomadores de decisão e cidadãos possam encontrar as melhores metodologias e maneiras de trabalharem juntos.

Resultados sobre tomadores de decisão

Oferecer todos os instrumentos necessários para que os tomadores de decisão possam implementar um processo orçamentário mais aberto e participativo como política pública e com uma visão de continuidade.

Melhorias no cenário atual

Ajudar a criar e fortalecer movimentos locais (grassroots), utilizando uma plataforma de brigada on-line onde as pessoas poderão se juntar de maneira simples utilizando redes sociais existentes, incluindo nesse processo influenciadores locais (grasstops) com o objetivo de potencializar o objetivo social do projeto.

Resultados esperados para o projeto

O projeto tem como objetivo criar um novo canal de comunicação para promover uma participação mais efetiva e qualificada no processo orçamentário, através de acesso à informação pública e dados de orçamento abertos de qualidade e maior interatividade entre a rede de cidadãos engajados. Facilitar e promover o monitoramento das ações previstas no orçamento público também será um ponto chave do projeto.

Trabalhos necessários para o inicio do projeto

Para o início do projeto é necessário criar uma equipe e alianças estratégicas para validar, criar e compartilhar conhecimento nesse território, e principalmente como os passos seguintes podem ser realizados. Já temos alguns parceiros mapeados e em breve iremos divulgar suas funções.

Participe!

Convido a todos para se inscrever na lista de discussão dos Gastos Abertos, no qual vamos utilizar como canal de comunicação, divulgação das atividades e para discutirmos estas e outras questões.

Nos próximos dias, vamos divulgar a evolução dos primeiros passos.

Referências externas

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Fullstackers, meetup sobre aplicativos cívicos no Google

- December 9, 2015 in colaboração, Conhecimento Livre, Dados Abertos, Eventos, governo, Internet, participação, projetos, sociedade civil

Há algum tempo já penso em construir um evento diferente para desenvolvimento de aplicativos cívicos com uma dinâmica e envolvimento de pessoas que realmente estão trabalhando no dia-a-dia no contexto cívico e desenvolvedores que buscam desafios tecnológicos.

fullstackers

Pois bem, acredito que teremos um meetup bem interessante no próximo dia 27 de fevereiro na sede do Google, com ajuda de diversas pessoas acredito que vamos fazer algo bacana e aproximar ativistas e desenvolvedores de uma maneira construtiva e levando em conta o que cada um busca.

O objetivo é juntar pessoas que possam construir aplicações úteis e bacanas com tecnologias novas, e além disto esperamos que alguns aplicativos ganhem vida através de um direcionamento especifico.

A primeira parte do evento é destinado na apresentação de aplicativos cívicos já existentes, APIs públicas para consumo, dados abertos disponível e etc, estas informações devem ser apresentadas por ONGs, servidores públicos ou empresas.

Na segunda parte, o objetivo é ter apresentações com temas técnicos como mapas, analytics, containers, mobile, UX/UI, e por aí vaí.

Na terceira parte do evento será o mais interessante e diferente. Mão na massa, porém, não é com código e sim com planejamento. A ideia é escrever projetos através de wireframes, especificações técnicas e validar tudo isto com uma equipe de apoio técnico e os agentes que apresentaram na primeira parte do evento.

O objetivo do evento é ter projetos documentados, do que se pode fazer, possíveis parceiros estratégicos, como ela pode tracionar e qual um plano mínimo para validar esta ideia.

Evento encerrado, começamos um novo evento.

Nos 15 dias seguintes os desenvolvedores podem implementar suas ideias com os projetos escritos durante o evento e que estarão públicos, encerrado este periodo, uma comissão que será definido no dia do meetup, irá comentar sobre todos os aplicativos.

Os melhores aplicativos serão premiados, aí então iremos tentar apoiar com um plano para replicação, financiamento e sustentabilidade através de um direcionamento para organizações que trabalham com o financiamento ou mentoria neste contexto.

Em breve vamos descrever com mais detalhes cada passo, de quem vai apresentar, como será, e etc. Mas se você tiver interesse em participar se junte a comunidade do meetup e abra uma discussão lá.

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12 dicas para desenvolvimento de aplicativos cívicos

- November 17, 2015 in aplicativos cívicos, colaboração, Dados Abertos, Destaque, governo, Internet, participação, planejamento, prestação de contas, projetos, sociedade civil, sustentabilidade, Toró de ideias, transparência

Aplicativos cívicos permitem que pessoas participem do desenvolvimento público através da tecnologia, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas, promover cidadania e debater novas políticas públicas sem a necessidade de autorização, permissão e de forma gratuita.
Crédito: Brendon Carson

Crédito: Brendon Carson

Para isto, estamos listando neste artigo alguns pontos importantes a serem refletidos na construção de uma solução cívica em um aplicativo.
1. Mantenha sua proposta de valor simples
O desenvolvimento de aplicativos deve ser baseado em uma proposta de valor clara e simples. Tente se concentrar em uma funcionalidade objetiva, evite desenvolver diversas funcionalidades ao mesmo tempo, pois caso isto ocorra talvez seja o cenário para se construir mais de um aplicativo. Uma proposta de valor clara e simples, pode ajudar o aplicativo a criar uma identificação e ser utilizado com mais facilidade pelo público alvo.
2. Conheça o público através de conversas constantes
Converse com o público que irá utilizar seu aplicativo, antes de desenvolver. Estas entrevistas são excelentes para validar desde da sua proposta de valor, até mesmo a linguagem que você irá usar para explicar o aplicativo e as “telas” (experiência) que você irá disponibilizar para os usuários utilizarem sua solução. Procure criar perguntas para validar sua ideia, leve um wireframe como material de apoio e verifique se a proposta de valor será percebida com facilidade.
3. Capacitação dos usuários
Mantendo a proposta de valor simples e conhecendo o seu público, você provavelmente terá uma boa ideia de qual será a dificuldade dos usuários em utilizar a plataforma, por isso desenvolva um plano para capacitar os usuários que você quer atingir. Inicialmente, seu plano pode contemplar uma boa documentação, mas trabalhe também com a hipótese de capacitações offline, além de permitir que desafios de compreensão da aplicação pelo usuário possam ser trabalhados através de UX/UI (User Experience/User Interface). No Programa Cidades Sustentáveis, no qual há atualmente mais de 270 cidades brasileiras participantes que utilizam o IOTA (Indicators of Transparency and Accountability) para compartilhar os mesmos indicadores e boas práticas, é realizada uma capacitação de uso da plataforma pela Rede Nossa São Paulo. Mais de 400 pessoas de cerca de 130 cidades foram capacitadas a utilizarem a plataforma corretamente, um exemplo é o curso que aconteceu em Paraty e Betim.
4. Contexto local e dados geolocalizados
Além dos usuários, verifique também questões locais de onde você pretende utilizar a solução inicialmente, e torne isto como parâmetro da sua aplicação principalmente para que seja possível a replicação em outros locais. Sempre que possível, também adicione informações de geolocalização nos dados e trabalhe para que teu aplicativo possa lidar bem com a localização.
5. Alianças estratégicas para direcionamento e escalabilidade
Baseado em seus usuários, sua proposta de valor e o local onde você irá trabalhar inicialmente, busque identificar organizações e pessoas que possam trabalhar em conjunto com a aplicação para poder realmente gerar impacto. Um exemplo, se você esta trabalhando com uma solução sobre a saúde de crianças, busque uma ONG e um departamento do governo que trabalhe neste contexto para te ajudar a divulgar, desenvolver e atuar em cima do seu aplicativo.
6. Dados abertos geram integrações
É muito importante que os dados que você armazene, sejam de fácil integração e reutilizáveis por outros, mantenha o acesso através de uma API e download de dados em formatos abertos para que todos possam criar novos aplicativos baseado no teu. Uma boa abordagem é basear a API em uma arquitetura REST, e os dados estarem em padrões estruturados e de preferência com semântica e documentação sobre o uso deles. Um exemplo interessante é a plataforma CKAN, o catálogo de dados mais utilizado atualmente por governos para disponibilizar suas bases de dados em formatos abertos. Além de ser um catalogo, ele também proporciona uma API para que todos os dados hospedados por ele sejam acessíveis e consultáveis, facilitando a integração por terceiros e a manipulação deles remotamente através de aplicativos.
7. Cross-platform para não gerar exclusão digital
Aplicativos têm de ser para todos, não devem depender uma plataforma específica para serem utilizados. Trabalhe com frameworks e metodologias onde seja capaz oferecer a sua aplicação para todas as plataformas (ou a maior parte delas), dessa maneira não criando uma exclusão digital. Um caso típico é disponibilizar um aplicativo apenas para um sistema operacional de celular, e não oferecer suporte para outros e nem via web, Atualmente, é interessante começar o projeto baseado em web e nos próximos passos realizar o desenvolvimento de aplicativos nativos para celulares.
8. Manutenção com colaboração
Facilite o cenário para que outras pessoas possam te ajudar no desenvolvimento e manutenção do software. Trabalhe com os códigos fontes em um repositório público, por exemplo, e mantenha versões atualizadas de seu aplicativo em períodos curtos. Desenvolva um “ChangeLog” e um canal de comunicação simples para que novos desenvolvedores possam ajudar.
9. Licenças para facilitar a reutilização
É essencial que você deixe claro qual a licença que escolheu para sua aplicação. Há diversas licenças disponíveis, então verifique qual é a melhor para o seu caso por meio desse verbete na Wikipedia. Não deixe de definir e mencionar qual a licença dos dados presentes na sua aplicação. Veja algumas delas no site Open Data Commons.
10. Privacidade sobre informações pessoais
É importante deixar claro para os usuários quais dados você esta armazenando, como você gerencia a questão de cookies e como você lida com as informações do usuário quando ele acessa seu aplicativo. Em alguns casos, você terá que lidar com dados sensíveis de pessoas, sejam eles dados pessoais ou informações que podem impactar na segurança do usuário e por isso é importante que você defina esta política e mantenha transparente como você garante a segurança do usuário.
11. Comunidade para colaboração constante
Reflita e faça um planejamento sobre como seu aplicativo pode desenvolver uma comunidade de usuários e desenvolvedores,. Para isso, é interessante que você tente determinar desde o início qual seria o provável senso de comunidade, ou seja, quem seriam as pessoas e organizações que participariam e quais as motivações delas em se juntarem para formar uma comunidade. Quando há comunidade, as chances de manutenção, expansão, desenvolvimento de novas alianças estratégicas e impacto são maiores.
12. Sustentabilidade financeira para continuidade
O desenvolvimento do aplicativo cívico poderá ser realizado e mantido com esforços e necessitam de recursos. É importante a criação de um plano que contemple os passos até aqui comentados. Estes passos provavelmente serão um bom caminho para encontrar uma forma de financiamento para seu aplicativo, seja por meio de alianças estratégicas, de fundações que trabalhem como investidores de impacto social ou por atores que são responsáveis ou têm interesse em oferecer aplicativos cívicos. Flattr this!

O movimento de dados abertos tem uma arquitetura de participação?

- September 14, 2015 in colaboração, Conhecimento Livre, Dados Abertos, Destaque, sociedade civil, software livre, transparência

Acabo de sair de duas conferências, a ConDatos e a AbreLatam, organizadas pelo governo do Chile e a sociedade civil organizada. O objetivo de ambos os eventos é o debate sobre dados abertos, assisti a algumas palestras e principalmente conversei com muitos participantes.

Nos últimos eventos que tenho presenciado, busco novos movimentos que estão surgindo destas comunidades, tentando compreender se existe alguma arquitetura de participação.

Em um universo paralelo, observando comunidades de software livre e diversos pensadores que comentaram sobre o crescimento do ecossistema, podemos destacar que o movimento de software livre é baseado em diversos outros. O objetivo é claro para todos eles: quando o software desenvolvido tiver uma licença de liberdade aos direitos autorais das produções intelectuais, ele é livre. Uma regra simples.

Além disto, o modo de trabalhar que os novos movimentos se desenvolveram é o que Tim O’Reilly descreve como arquitetura da participação, assim como Larry Lessig provoca que precisamos prestar atenção para arquitetura de sistemas baseado no que Mitch Kapor diz sobre a arquitetura ser política. Isto significa que é preciso criar uma estratégia de como a colaboração, comunicação e participação irão acontecer.

Nos dias de hoje, podemos observar como o software livre é a base de inovação e tecnologia no mundo. Glyn Moody destaca alguns números impressionantes, tais como 485 dos 500 supercomputadores são executados por Linux. Na computação em nuvem, 75% utilizam Linux como sistema operacional primário. Servidores web são dominados por softwares livres há mais de 20 anos. E por aí vai.

Com relação ao desenvolvimento de software com foco em dados abertos, podemos citar comunidades estruturadas como da Open Knowledge com a ferramenta CKAN, que é um catálogo de dados com o objetivo de disponibilizar datasets de maneira organizada. Há um número considerável de portais no mundo se utilizando dele e já há uma comunidade organizada ao redor desta ferramenta. Já é possível notar um grande número de extensões desenvolvidas por terceiros, e aí entramos numa reflexão que Linus Torvalds faz sobre a arquitetura ser mais importante que o código-fonte. Estou citando isto pois é comum desenvolvedores dizerem que podemos ter um código melhor para o CKAN, mas a pergunta é: podemos ter uma arquitetura de participação melhor? O CKAN é ótimo neste aspecto e está cumprindo seu objetivo.

Meu ponto agora é explorar um pouco por que não estamos trabalhando para fomentar mais o movimento de tecnologia ao redor de dados abertos. E principalmente, por que não temos uma arquitetura realmente construída para as que pessoas participem?

A World Wide Web é um sistema de participação descentralizado, na qual todos podem estar presentes de maneira simples através dos seus protocolos, através de uma arquitetura de participação “espada”. Faça algo nos padrões estipulados, e você está nela. Simples assim.

Eric Raymond defende a ideia da promessa plausível para que um projeto tenha sucesso no desenvolvimento colaborativo e para isto ele destaca a necessidade de um líder qualificado que tenha capacidade de coordenar pessoas e a ideia que está nos códigos liberados, sendo que os projetos não precisam ser brilhantes, mas sim serem lançados de maneira clara para comunidade com uma proposta plausível, pois ela poderá ficar brilhante com este posicionamento com o tempo.

A arquitetura do software é a política de participação e envolvimento dos usuários e desenvolvedores em ambientes livres.

O problema do ovo e da galinha parece atingir muito o ecossistema atual de dados abertos. De um lado, comunidades e desenvolvedores buscam dados abertos que estejam disponíveis para fazer algo, enquanto do outro, governos alegam que os dados existentes ainda não são muito utilizados pelo público. Algo está faltando aí.

A questão econômica é extremamente complexa e muito discutida nos últimos eventos, mas é interessante de visualizar como ocorre hoje com a economia baseada em software livre. Atualmente, um software livre que tem uma boa estratégia de participação desenvolvida é uma vantagem competitiva no mercado.

Vivemos em uma época que inovação é engajamento.

Veja o exemplo do Docker, um software livre que automatiza e facilita o processo de implementação através de containers. Aberto em 2013 para o público, em pouco mais de alguns meses criou um ecossistema de comunidades, colaboradores e com empresas especializadas na prestação de serviço e consultoria. Indo um pouco mais fundo, podemos perceber que toda a tecnologia já existia antes do Docker e já estava disponível para todos, mas ainda não existia uma maneira simples de fazer com que as pessoas participassem.

O que o Docker fez foi criar uma interface que facilitou a participação de usuários, qualquer um poderia criar um container e disponibilizar para os outros. Rapidamente todos começaram a utilizar e consequentemente os provedores de infraestrutura tiveram que começar a utilizar.

Docker é fantástico, a arquitetura de participação é um dos fatores de sucesso.

Retornando ao evento: muitas pessoas comentaram comigo uma frase dita em algum painel, que afirmava que as leis da transparência convivem perfeitamente com a corrupção. Infelizmente não sei quem é o autor, mas a frase ilustra muito bem a falta de um ecossistema. Abrir os dados não vai resolver o problema de transparência. Abrir os dados não gera participação. Será que estamos querendo o que não podemos? Como liderar um projeto e realizar promessas tão abrangentes? As promessas devem ser mais pontuais.

A promessa plausível é fundamental para dizer o que se quer, e a arquitetura de colaboração é o que vai permitir a participação e o desenvolvimento colaborativo.

Muitos dizem que não é necessário promover software livre com dados abertos, pois isto não é um fim. Mas acredito que é um desperdício não aproveitar um ecossistema tão forte e com suporte tão abrangente, desde desenvolvedores, infraestrutura, empresas e principalmente uma arquitetura de colaboração!

Quais movimentos ou projetos de dados abertos teremos daqui alguns anos? Devemos investir tecnologias estratégicas nessa reflexão, que possam ajudar na construção da participação.

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